quinta-feira, 26 de abril de 2007

Muda boa-tarde


Bom-dia é branquinha e lembra claridade, já a boa-noite é rosa-escura, quase magenta. Para minha surpresa, descobri uma híbrida: a boa-tarde; branca, mas no centro já se tingindo de magenta, como se a flagrassêmos na troca de roupa; ela preparando-se para a noitada. A branca timidez ganhando concupiscências magentas quase rubras escarlates.

Bom-dia, boa-noite e boa-tarde são nomes populares para um arbusto que floresce facilmente em climas quentes e medra rapidinho, rapidinho.

Pois uma plantinha tão singela quase causa furor por onde passei, sobraçando aquele vasinho com a muda recém-comprada. No trabalho, houve longos e namoradores olhares das minhas colegas. Todas - evidente! - sabiam o nome da tal plantinha, embora desconhecessem a variedade mista dela. Mas ao pegar a condução no final da tarde... agradáveis pequenas surpresas me enlanguesceram; tornaram-me crédula da humanidade.

Coletivo de fim-de tarde parece desejar competir com as latas de sardinhas. Ao passar pela catraca, o trocador me segurou - com toda a gentileza possível - minha muda de boa-tarde, que, gentilmente sorriu-lhe em agradecimento (Sim! por que não?... e aquela sombra de sorriso que vislumbrei no rosto dele o que era senão um sorriso em resposta ao mudo agradecimento de minha mudinha? heim? ora, pá!).

Finquei-me ao lado de uma moça que lia uma revista em francês. Quase fiquei com torcicolo a fim de acompanhar-lhe a leitura (está cada vez mais difícil encontrar material atualizado em francês nas bancas; é o monopólio cultur-ARGH-l norteamericanalhado. Nada contra a cultura norte-americana, mas não consigo entender o "monopólio cultural" - se é monopólio, deixa de ser cultura e passa a ser tirania, mas esse é um tópico para outro dia). A moça intelectualizada não percebeu minha muda implorando-lhe socorro . É, porque fica difícil tentar se manter em pé quando o motorista é um Schumacher frustrado, ainda mais segurando bolsa, livros e uma delicada muda silvestre.

Mas... ao lado da nossa intelectual francesa estava um rapaz. Este, ao ouvir o apelo mudo da boa-tarde, praticamente arrancou-ma docemente dos braços e a segurou, não... a envolveu com um ar decidido no rosto que me fez lembrar gravuras antigas de livros de contos de fadas; não era um rapaz com uma muda de boa-tarde, era antes um cavaleiro salvando uma frágil donzela dos dissabores do dragão da multidão. Os cuidados com que ele a segurava enterneceram meu coração empedernido. A moça do banco da frente sacudiu as longas madeixas, ameaçando machucar com sua cabeleira gloriosa os frágeis talos da plantinha. Coisa que não ocorreu porque o salvador da boa-tarde a mudou rápido de posição, pondo-a a salvo, enquanto lançava um olhar preventivo e zangado para a ameaça em potencial logo à frente. Baixei a cabeça para sorrir melhor intimamente.

Desci quase saltitante da condução.

Uma eu refleti: que se o homem hoje não aparenta sensibilidades, não seria porque ele quase nunca é confrontado com algo que o sensibilize?

Cultivar mais plantas e menos sisudez - talvez seja um bom primeiro passo.

Considerem isso um convite a plantar alegrias no seu dia a dia.

Post-scriptum: Neste mesmo instante, minha boa-tarde se orvalha com a chuva desta madrugada e eu posso vê-la à janela do meu gabinete improvisado. E, garanto-lhes, não posso deixar de sorrir. Flores sempre fazem isso comigo: acreditar na beleza da vida.


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