quarta-feira, 11 de abril de 2007

Por que "poeta maldito'?




Charles Baudelaire - um dos poetas malditos.

Por que seria?... talvez por ter cometido o "mau gosto" de escrever e - horror! - publicar uma poesia como a que está abaixo transcrita?... Confira! observe a descrição minuciosa e nada apaixonada, e a confronte com o final.
Imagine-se passeando com o poeta por um bosque tout à fait charmant (= encantador) quando, de repente....

Uma carniça (tradução de Guilherme de Almeida)
Recorda o objeto vil que vimos, numa quieta,
Linda manhã de doce estio:
Na curva de um caminho uma carniça abjeta
Sobre um leito pedrento e frio.

As pernas para o ar, como uma mulher lasciva,
entre letais transpirações,
Abria de maneira lânguida e ostensiva
Seu ventre a estuar de exalações.

Reverberava o sol sobre aquela torpeza,Para cozê-la a ponto, e para,
Centuplicado, devolver à Natureza
Tudo quanto ela ali juntara.

E o céu olhava do alto a soberba carcaça
Como uma flor se oferecer;
Tão forte era o fedor que sobre a relva crassa
Pensaste até desfalecer.

Zumbiam moscas sobre esse pútrido ventre,
De onde em bandos negros e esquivos
Larvas se escoavam como um grosso líquido entre
Esses trapos de carne, vivos.

Isso tudo ia e vinha, assim como uma vaga,
Ou se espalhava a borbulhar;Diz-se-ia que esse corpo, a uma bafagem vaga,
Vivia a se multiplicar.

E esse mundo fazia a música esquisita
Do vento, ou então de água corrente,
Ou do grão que, mexendo, o joeirador agita
Na joeira, cadenciadamente.

As formas eram já mera ilusão da vista,
Um debuxo que custa a vir.
Sobre a tela esquecida, e que mais tarde o artista
Só de cor consegue concluir.

Entre as rochas, inquieta, uma pobre cadela
Fixava em nós o olhar zangado,
À espera de poder ir retomar àquela
Carcaça pobre o seu bocado.

- E no entanto hás de ser igual a esse monturo,
Igual a esse infeccioso horror,
Astro do meu olhar, sol do meu ser obscuro,
Tu, meu anjo, tu, meu amor!

Sim! tal serás um dia, ó tu, toda graciosa,
Quando, ungida e sacramentada,
Tu fores sob a relva e a floração viçosa
Mofar junto a qualquer ossada.

Dize então, ó beleza! aos vermes roedores
Que de beijos te comerão,
Que eu guardo a forma e a essência ideal dos meus amores
Em plena decomposição!

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Não!!! Peraí!!! alguém pare por aí!

Quer dizer que o sujeito em questão está a passear com uma dama por quem ele arrasta lá a sua asinha e, no meio do caminho não tinha uma pedra, mas uma carcaça podre, fedida, nojenta, asquerosa, podre e carcomida por vermes e ainda disputada por uma vira-lata faminta, e o poeta Charles Baudelaire resolve fazer uma comparação daquela visão horrenda com a dama ao seu lado, lembrando a ela que ela também ficará assim um dia?... é isso?!?... ah, MALDITO!!!

Bem, apesar de parecer isso, é bem mais profundo. Na realidade, ele quer que reflitamos que TODOS nós, inclusive o ser que amamos, um dia viraremos pasto para vermes. E aí? vamos fazer o quê? usufruir a vida? sentarmo-nos e vermos e deixarmos a vida se escorrer para longe de nós? O que deveremos deixar se nada disso será levado?


Agora pareceu óbvia a mensagem, não é? E por que a menção a uma mulher ao seu lado? talvez para escandalizar mais, talvez para lembrar que disso ninguém escapará. Talvez, talvez... Em verdade, trata-se de uma poesia com possibilidades múltiplas e que deve ser relida em vários momentos distintos da vida do indivíduo. Releia-a algum tempo depois. Veja que sensação ela lhe causará. Com o tempo, começa-se a enxergar coisas nas entrelinhas.

Charles Baudelaire, um dos poetas malditos que mais abençoou minhas idéias. O Pai da modernidade. O poeta maldito mais bendito da litereatura francesa.

Que o cemitério Pèra Lachaise seja ainda muito e muito visiado graçs aos seus ilustres moradores, incluindo, óbvio!, Baudelaire. Porque um poeta desse quilate não se enterram as idéias, apenas o corpo, a matéria terrena. Seu nome e suas obraws permaneerão quase que imorredouras.

Bonsooir, Baudelaire.