quinta-feira, 12 de abril de 2007

À Um Estranho da Rua




Roupas são engraçadas. Tem algumas que caem no corpo como se fossem feitas de magia e nos tornam subitamente mais atraentes, mais apetitosas aos olhos alheios e aparecem olhares gulosos de todas as esquinas.


Eu tive um vestido assim: floral, rosa quase avermelhado, um simples chemisiê - sabe? aquela camisona até quase os joelhos, fechado com botões na frente, quase um clássico! Pois. Não sei era o tecido molinho ou a estampa extremamente feminina, mas o fato é que não podia vesti-lo que eu surgia como uma mancha enrubrescida contra o cinza da cidade.

Numa indeterminada tarde, fim da hora do almoço, em pleno centro da cidade.
Eu com meu vestido perigoso. Um estranho me chamou realmente a atenção. Por quê? não sei explicar. Talvez o seu olhar não fosse tão faminto quanto o dos outros, talvez ele não parecesse com o lobo mau, talvez eu tivesse sentido - eu também! - curiosidade acerca dele, talvez ele fosse o meu tipo físico preferido àquela época, talvez... simplesmente tenha sido a magia do vestido e nada possa ser explicado.

Coincidência ou não, enquanto percorria as ruas, cruzamo-nos mais de duas vezes, cruzamos olhares, reconhecemo-nos e seguimos, cada um, seu próprio caminho. Ele era alto, nem gordo nem magro - médio, usava óculos, uma camisa branca por dentro de uma calça social de qualquer uma dessas cores neutras que os homens tanto gostam de usar. Seu perfume ainda resistia ao depois do meio-dia, parecia loção pós-barba. E seu olhar... seu olhar parecia querer me desvendar em apenas um instante. Sim! eu me lembro (sério!) de tudo isso; e ninguém mais do que eu mesma está tão surpresa com isso quanto euzinha. Acontece que minha memória é uma piada de péssimo gosto e lembrar detalhes assim de um desconhecido é, no mínimo, desconcertante. E olha que isso já faz uns dez anos, pôxa!

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