Grupo de Teatro do C.J.C. Sem Nome
orgulhosamente apresenta:
Auto da Barca do Inferno
Figuras Contemporâneas
Texto original: Gil Vicente
Adaptação: Tetê Macambira e Grupo Sem Nome
Peça teatral em um ato com seis cenas
Personagem Ator / Atriz
Anja..............................Walderle Yasmin
Diaba.............................. Jéssica Gomes
Playboy ........................ Alexandre Gianni
Boba………………………...............………………….. Jéssica Sol
Pastor ……………………………………….............. Bruno Rafael
Valdirene Kelly ……………………...……….. Rafaela Ferreira
Adevogado ......................... Felipe Farias
Bin Lada.......................... Ailyn Marjorie
Direção: Tetê Macambira
Produção: do próprio grupo
Fortaleza- Ceará, novembro de 2006
Anteato
(Ao fundo, impressão de um lago. Abicadas à beira, duas barcas diametralmente colocadas. Se possível, areia na boca de cena. Luz soturna. Entra a Anja, vestida de branco, mais parece uma neo-hippie que uma delegada do paraíso. Está carregando uma bolsa estampada, da qual escapa pontas de écharpes, incensos, pincéis etc... Ao entrar, a luz vai ficando mais clara, como se dela irradiasse uma luz da manhã. Entra e observa a barca colocada na outra ponta. )
ANJA(falando consigo mesma): Ihhhhhhhhhhhhh... mas que barca mais triste, meu!!! Assim não dá! Olha! (e vira a cabeça para cima como se falasse para alguém superior, mas sem cerimônias) Não pense que vou deixar uma ou outra alma entrar numa canoa quebrada dessa! Se ao menos, fosse a praia de Canoa quebrada, tuuuuuuuuuuuuudo bem! (olha de novo para a barca da outra ponta) Mas, que penúria essa pobre!!! Não, assim não dá! Ainda bem que vim preparada: trouxe flores, fitas, incensos e tintas para que a minha barca seja a maaaaaiiiiiiiiiiiiiiiis linda deste entrementes do lago do destino. (Vira-se ao público) É, porque qualquer um de vocês quando morrer, vai querer encontrar banda, alegria e tudo o mais na hora de selecionar quem vai para o lado dos danados (aponta a barca próxima) e quem vai (se dirigindo à outra barca) à terra abençoada! E quem – de vocês – gostaria de ir ao paraíso numa tranqueira daquelas????... não, não e não! Vamos dar um jeito nisso! (Pára. Entristece-se e vira-se de novo à platéia com pesar na fisionomia) Se bem que são bem poucas as almas que têm alcançado a graça eterna... Estão todos tão acostumados com os mal-feitos que nem sei... Mas (apruma-se, de súbito), vamos aguardar que hoje será melhor!! Hoje pode ser o dia que todos serão salvos!!!
DIABA (entrando, ainda se ajeitando. Ela está vestida para matar: vestido vermelho, meia arrastão, sapato preto de salto alto, boá preto sobre os ombros e ajeita uma tiara vermelha com dois chifres de acetato vermelhos com baterias pisca-pisca inseridos): Iludida! Tá achando que a mamãezinha aqui perdeu o jeito, é?... hahaha!!! Sua boba!!! Todos que vierem hoje serão meus..........meus................... mEEEEEEEEEEEEEEEEUUUUUs! Huhuhuhu!
ANJA (virando-lhe ostensivamente as costas e se dirigindo à sua barca): Já prestou!... De repente, me deu uma vontade louca de acender um incenso! (Chega à sua barca, deposita no chão a sacola e começa a organizar as coisas que trouxe para enfeitar a nau. Acende um incenso. Prolonga esse processo com dedicada atenção e paciência, enquanto a Diaba se anuncia ao público)
DIABA: Vai, vai, tonta duma figa! Santinha do pau oco! Não vai ter mesmo o que fazer o dia todo! (Liga as baterias dos seus chifres) Pooooooodre de fashion esse lance aqui, ó!!! Quem foi que disse que no inferno não se segue a moda? .. Atenção para a diaba de plantão: vestidinho básico vermelho de Pior, sapatinhos incandescentes de (cantarola, imitando o jingle da Eveíza) Torturiza.... e, para completar acessórios da Caloraço!! (requebra-se, deliciada) Isso é que é estar na
moda!! Não sou (fala mais alto e intencionalmente à Anja) como umas e outras, que compram tudinho em pontas de estoque e liquidação..... (cantarola desafinadamente) lá, lá, lá....
ANJA(suspira, aborrecida): Vaidade e ganância são pecados capitais, minha cara. E Preguiça também. Portanto, deixe-me trabalhar na minha barca, sua afetada!
DIABA: Hihihihi.. se queimou, foi, bebé?
ANJA: Sua endiabrada, tome tento que lá vem o primeiro freguês e tá com pinta de ser todo seu....
DIABA: Heim??? Ops! (ao público) Lá vem o primeiro.....
CENA 1
As mesmas e Playboy
(Música incidental: Retrato de Playboy 2, de Gabriel, o Pensador. Entra um playboy vestido com roupas de grife, tentando falar ao celular. Entra desfilando, exibindo-se à platéia. Se possível, paquera com uma ou outra “fã”. Vai até o fim da boca de cena e retorna. Música pára. Ele se dirige à Diaba)
PLAYBOY: Para onde é que vai essa barca, heim?
DIABA: Vai para a terra maldita, e já está de partida.
PLAYBOY: E a senhora vai para lá, é?
DIABA (sedutora): É isso aí. Vamos? (roça-lhe o boá no rosto)
PLAYBOY: Essa sua barca ‘tá bem quebrada, não é?
DIABA (mesmo jogo): Ora!!! O senhor a está vendo do lado de fora. Ali dentro é bem melhor!!!
PLAYBOY: Mas para onde é mesmo que vai, heim???
DIABA (deliciada): Diretamente para o inferno!
PLAYBOY (desvencilha-se da Diaba): Ô terrinha mais sem graça essa sua, heim?
DIABA: Vai ficar me zoando, é?
PLAYBOY: E tem alguém querendo ir nessa banheira?
DIABA: Sabe que eu ‘tô te achando perfeitinho para ir?
PLAYBOY: É você quem ‘tá dizendo...
DIABA (irônica): E por que mesmo espera Vossa Senhoria escapar de ir ao Inferno, posso saber?
PLAYBOY: Tem um monte de gente rezando por mim lá embaixo.
DIABA: Ahhhnn... quer dizer então que você li-te-ral-men-te deita e rola lá embaixo, esperando que rezem por você ao vir para cá? Xiiii.. Pára de enrolar e entra logo aqui; deixa de conversa, playboyzinho!
PLAYBOY: O que é que é? Me inclua fora dessa! ‘Tá pensando que é assim, é?
DIABA: Embarca logo! Foi esse o que você escolheu, portanto, contente-se! Ajoelhou, neguinho? Agora tem que rezar!
PLAYBOY: Não tem nenhuma outra barca por aqui?
DIABA: Não senhor! Você até já me deu o sinal de que viria para cá.
PLAYBOY (espantado): E que sinal foi esse?
DIABA: Ah!... e já esqueceu as armações que aprontou lá por baixo, foi? Sempre se aproveitando da sua posição social e pisando nos mais pobres, é? Pois, filhinho, curtiu!? agora aproveite o que plantou! Entre logo nessa barca que eu já ‘tô perdendo a paciência!
PLAYBOY: Nã-nã-ni-na-não! Peraí. Devagar. Vou praquela outra barca. (Tenta chamar a atenção da Anja) Ei! Ei! EI! Ei, sua hippie! ‘Tá ouvindo não, é sua lesada? Agora foi!!! Aqui só tem incompetente! ‘Tão achando que ‘tão tratando com qualquer um, é? EIIII...! Tu aí, ô de branco! Ei, songa-mouca! Quero entrar nessa barca aí enfeitada! (Dirige-se à barca da Anja) Ei!!! (à parte) Mas que mau gosto, heim??? (à Anja) Oi!
ANJA(desprezando-o): Que é que cê quer, hem?
PLAYBOY: É essa barca aí que vai pro Paraíso, é?
ANJA: Pra que é que cê quer saber?
PLAYBOY: Queria ir pra lá.
ANJA: Disseste bem: Q-U-E-R-I-A-S. Mas não irás. Infelizmente para ti. Felizmente para mim. ‘Tá?
PLAYBOY: Ah, qual foi? Sabe com quem está falando?!? Luís Victor Alcântara DE Lamartine E Belucci. É melhor para você me colocar aí dentro, senão...
ANJA: Senão o quê? Vai contar pro papai, é?... Se liga, meu! Tu morreste e teu nome não vale nada. ‘Tá ligado, maluco?
PLAYBOY: Ô meu!! Dá um jeitinho aí, vai... Olha... (olha para um lado e para o outro enquanto tira a carteira do bolso traseiro da calça).. tenho um bilhete de entrada... (mostra dinheiro)
ANJA: Dinheiro aqui, como teu nome, não vale nada.
PLAYBOY: Mas (mostra os cartões de crédito) tenho outras opções: Visacard, hipercard... tcharans!, Visaelectro e... mastercard!
ANJA: É, mas para entrar no céu, não tem preço.
PLAYBOY: Vem cá, gatinha! Você não ‘tá no seco, não, heim? (tenta agarrar a Anja)
ANJA: Galinhando desse jeito, nem aquela ali (apontando desprezivelmente para a Diaba) vai te querer.
DIABA (ao longe): Que foi, heim?^’Tá falando de mim, né? Se faz de santa mas passa todo o além-vida me criticando!
ANJA: Nada não... (à parte) ô mulherzinha estressada! Deve ser o calor da menopausa. (Ao playboy) Pois, seu Fulano-não-sei-das-quantas- E- etc, trate de tirar o cavalinho da chuva e vá ciscar naquele galinheiro. Vá! Passa!
PLAYBOY: Maior malfeitão! Olhaí!.... (volta cabisbaixo à Diaba)
(Ao ver o Playboy voltando, Diaba dá uma gargalhada triunfal e se ajeita toda para recebê-lo)
DIABA: Deixa para lá aquela tonta... Entra logo aqui, que somos farinha do mesmo saco. Pega logo os remos e chegando lá, serás bem atendido. Entra! (insinua-se)
PLAYBOY: Espera aí! Deixa eu dar uma espiadinha lá embaixo...
DIABA: Ôxi?! E para que isso?
PLAYBOY: É que deixei uma gatinha que eu ‘tava enrolando lá e ela morria por mim..
DIABA: Hahahaha!! Nossa! Que cara mais corno! Hahaha!! Como você é bobo! Acreditou nela, foi?
PLAYBOY: Qual foi? Ela me enviava dez torpedos por dia! Sem falar nos e-mails etc...
DIABA: Tudo mentira que ela só copiava na net e mandava várias cópias aos seus trocentos amantes.... hahaha! ....Bo-bi-nho-!
PLAYBOY: E agora tu vai ficar zoando de mim, é? Cai fora, perua!
DIABA: Ah... meu benzinho, não foi você quem quis a sua vida assim??!... Então! Aproveita!
PLAYBOY(ainda querendo escapulir da sua sina) Não sei, não...
DIABA: Ora! Mal deste o último suspiro e ela já estava toda se derretendo para um outro lá! E outro com menos grana que você. ‘Tá? Meu bem!
PLAYBOY: É, mas tem a minha mulher e eu gostaria de vê-la, ó!
DIABA: Aaahh.. a sua matriz, é? Aquela que disse que se atiraria de ponta cabeça da torre da verdinha, que rezava novenas inteiras? Não sabe você o quanto ela rezou hoje dando GRAÇAS A DEUS por ter se livrado de um encosto feito tu!
PLAYBOY: Mas ela chorou pra caramba!!
DIABA: Ah, mas foi choro de alegria!
PLAYBOY: E o tempo todo que ela ficava se lamuriando, chorando a sorte?
DIABA: A mãe dela era uma ótima atriz e a tua mulher aprendeu tudinho e bem direitinho com ela.
Entra! Entra logo! Pára de enrolar, não sabe você que seu lugar é aqui, pôxa! Sem charme, entra!
PLAYBOY: Parece que é o jeito... É, né?... Entrar aí mesmo. Não tem outra opção.
DIABA: Ah! Até que enfim!Entra logo e dá uma descansada que estou esperando um monte de gente.
PLAYBOY: Mas que calor aqui, heim? Maldito este forno! Que inferno!
DIABA (sorri e começa a chamar mais gente) Olha a barca! Olha a barca! Vamos, que quero ir logo e não tenho o dia todo livre! Minha agenda está lo-ta-da-!
CENA 2
Os mesmos e Boba
(Música incidental: Balada do Louco, por Mutantes. Entra a Boba. Vestida de forma espalhafatosa e estranha; meias de cores diferentes, uma saia sobre a calça, uma blusa desestruturada, nada parece dar certo com nada. Entra mexendo numa matraca e numa corneta azul, vermelha e branca. Ao entrar, brinca consigomesma, maldiz-se, reclama da vida, se possível, pergunta a um ou outro da platéia como vai a vid? O tempo tá bom? Etc... Isso tudo deve demorar apenas uns 3 a 5 minutos. Ela caminha sem rumo, sem apresentar um objetivo principal. A música pára. A Boba se dirige à Diaba, que a observara por todo o tempo com um ar de insatisfação. Quanto à Anja, se divertia com as “marmotas” da Boba.)
BOBA: Oxente! E tem tu aí , é?
DIABA: Quem é você?
BOBA: Sou eu. Essa barcaça é da gente, é?
DIABA: De quem?!?
BOBA: Dos abestados, é?
DIABA: Toda sua. Entra.
BOBA: Pulando ou voando, é?
DIABA: Como quiser. Entra!
BOBA(olhando ao redor): Ôxe, adoeci e morri sozinha, é?
DIABA: Morreu de quê?
BOBA: De disenterícia, sô!
DIABA: De quê?!?...
BOBA: De caganeira, ôxi!!!
DIABA: Entra, põe logo o pezinho aqui!
BOBA(vai colocando o pé, mas hesita): Êêêê.... pra que tanta pressa?
DIABA: Entra logo, senão quando a gente pegar o beco, você vai ficar sozinha aqui que nem quando morreu.
BOBA: Tenha calma aí, minha fia! Pra donde é que a gente vai mermo?
DIABA: Ao porto de Lúcifer
BOBA: Hã..?!?
DIABA: Ao inferno! Entra!
BOBA: Ao inferno!? Pera lá! Barca maldita, barca danada, barca perdida, barca dos endemoninhados! Tomara que vire e nunca volte à tona, tomara que emborque de borco e não mais desvire, tomara que se perca e vá parar nos costados dos infernos! Só quem entra aí é quem tem pareceria com o chifrudo, o tinhoso, o coisa-ruim, o inimigo, o cão, satanás, o sinistro, o errado, o filho abortado do céu, o malfeitor, o anjo negro, o vampiro doidão, o sanguessuga das almas benditas, o cornudo, o sem-jeito! Tomara queime no fogo do inferno, tomara seja escorraçado até mesmo do inferno! Ratinho da Giesteira! O demo que te pariu!Toma o pão que te caiu! Vai pra ponte que caiu! Hu! Hu! Hu! Maldito! Maldito sejas e que nunca encontre paz nem sossego!
(à medida que vai soltando todas essas imprecações e mais algumas, ao gosto da atriz, a Boba vai se dirigindo à barca da Anbja, que está sorrindo com os impropérios ditos pela Boba à Diaba)
BOBA: Ó da barca!
ANJA: Que queres?
BOBA: Não quer me passar para lá, não, heim?...
ANJA: E quem és tu?
BOBA: Não sou ninguém.
ANJA: Tu podes até passar, se quiseres. Tudo porque nunca fizeste mal a ninguém, pelo menos não de propósito. Tua simplicidade te basta para desfrutar dos prazeres celestiais. No entanto, espera aí um pouco, vamos ver se sobra vaga para ti...
BOBA: Esperar, é?... Por quê?
ANJA: Porque pode aparecer gente mais merecedora que tu. E não deves tomar o lugar de seu ninguém. Entendeste?
BOBA: Ôxi!! Entendi, sim senhora!!! A senhora falabonito que faz gosto! Então vou ficando por aqui pra ver se me sobra um lugarzinho aí preu, ora se vou!!!
DIABA (à parte, despeitada): é isso mesmo, o céu só dá atenção aos que são abestados feito essa daí...
C E N A 3
Os mesmos e o Pastor
(Música incidental: “Eu era um bêbado..”. Entra o Pastor. Trôpego, bebendo sofregamente de uma garrafa vazia de pinga, o paletó amarfanhado, a barba por fazer, a camisa de mangas compridas meio fora da calça, suja. Do bolso saem dinheiro, garrafas. Está agarrado a um microfone e fala como se estivesse orando no templo. Música pára. Ele é recebido pela Diaba)
PASTOR: Aleluia! Aleluia! Irmãos! Eu sou o vocalista da banda da minha igreja, a Capital (esfrega os dedos polegar e indicador num gesto óbvio e expressivo de dinheiro) das Loucuras de Meu Deus! Aleluia!
DIABA: Que é isso, pastor? Isso lá é postura, rapaz?
PASTOR: Glória a Deus! Apenas sou um pastor que sabe aproveitar bem a vida, minha filha...
DIABA: E o senhor ainda sabe cantar?
PASTOR: Ora, você não me viu cantando, não, minha filha?
DIABA: pois entra aqui que eu toco direitinho...
PASTOR: Que é isso, minha flha?
DIABA: Tenho uma guitarra quente e faremos uma dupla sertaneja!
PASTOR: Aaahnn.. música sertaneja com rock? Éé.. pode ser. Mas paraonde é mesmo que você quer me levar, heim, sua danadinha?!?
DIABA: Para aquele fogo ardente do qual você nunca teve medo.
PASTOR: Juro pelo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo que não estou entendendo... E a minha bíblia?.. ela tem o poder ! Glória a Deus!
DIABA: Gentil pastor amigo da cachaça e da farra, vá logo beber com Belzebu, que ele já se prepara para beber no seu crânio podre de quem só se aproveitou da fé alheia!
PASTOR: Ah, corpo de Deus consagrado! Juro pela fé que tenho em Nosso Senhor Jesus Cristo, aleluia!, que continuo sem entender! Como é que euzinho possa ser condenado? (já estou até ficando sóbrio com essa história torta..)Um pastor tão dedicado, tão virtuoso, poderoso, potente, fiel a todas as mulheres da assembléia e sempre com muita saúde e vigor!
DIABA: Peraí, peraí, não vamos mentir que EU sei que isso (apontando para a virilha do pastor) aí já não dá mais conta do recado!
PASTOR: Pois pergunta, vai, pergunta às donas-de-casa que visitavam o culto!
DIABA: Inclusive as casadas?
PASTOR: Ora! As preparadas é que são as melhores!
DIABA: Mas ninguém lá na igreja falava mal dessa sua história?
PASTOR: Um ou outro querendo ser mais correto, mas como eu, existem às dúzias, tudo fazemos com os fiéis em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, aleluia!
DIABA: É, e é assim que muitos fiéis acabam se afastando da fé e vindo parar em minhas mãos; é por terem acreditado em pessoas tão indignas, tão levianas, que cometem pecados e fazem os outros cometerem também!
PASTOR: Ah, minha senhora! Sem sermão, por favor! Como eu já disse, a maioria faz isso; enganamos o povo que se deixa enganar porque é mais fácil.
DIABA: E tu achas memso que um fazendo errado, justifica você também fazer, é?... Nãããão... neguinho, cada um paga pelo próprio pecado e pelos pecados que fez o outro cometer.
PASTOR: Pelo menos, não fazemos como os padres que estão aliciando menores de idade!
DIABA: Mas também não são todos! Se for procurar em cada religião, tem sempre alguém que comete algo errado. São homens pecadores como qualquer outro e que se deixam levar, muitas vezes, pela facilidade do erro. E aí... é que eu entro... recebendo todos esses homens religiosos-só-da-boca-pra-fora aqui, na minha barca!!
PASTOR: Vixe!!! E o julgamento? Não vai ter não, é?
DIABA: Não basta colocar a mão na consciência e ver? Porque uma coisa você não pode negar; um homem da religião deveria ter mais consciência dos erros que comete. E isso é pecado sem volta, pastorzinho!
PASTOR: Me armei e me dei mal... hic!! (tenta beber mais um gole) E o pior, não tenho um só trago para esquecer as besteiras que fiz.
DIABA: Olha, eu não gosto de passar sermão em ninguém; deixo isso para aquela branquela sem graça dali (aponta para a Anja, que a ignora ostensivamente e faz meditação), mas para você, não tem jeito: entra logo aqui.
PLAYBOY: Ei!!! Vai colocar qualquer um aqui dentro mesmo, é?
DIABA: Claro! Não comecei com você, seu pamonha? (ao pastor) Vamos, a sentença já foi dada. Entra!
PASTOR: Pôxa!!! Nem adiantou me esgoelar feito um doido na frente daquela igreja? Só porque sou amigo das mulheres, um bom pastor se perde?
DIABA: Belo pastor! Em vez de resgatar as ovelhas, fez com que elas se perdessem! Deixe de demagogia e entra logo, pastor!
PASTOR: Agora não pode um cristão pensar um pouco na vida?
DIABA: Por que nã pensou enquanto ainda estava vivo?
PASTOR: E um joguinho, heim? A gente podia apostar céu ou inferno, que tal? (tira um baralho do bolso e começa a embaralhá-lo)
DIABA: E quem foi que te disse que eu podia fazer essas apostas? Ora, homem, eu já estou me aborrecendo! Vamos logo, vamos logo, entra, antes que eu perca as estribeiras e te faça engolir a cachaça com garrafa e tudo!
PASTOR: Vixe! E a dama diaba ‘tá ficando nervosinha, agora é?...
PLAYBOY: Ih, meu, até eu já estou com vontade de te dar um sossega leão aí, viu?
BOBA: Anda logo, seu abestado!!! Que porcos da tua laia eu enxoto é com vara (faz gesto de quem está açoitando com uma vara) Xô! Xô! Xô! Vai pra dentro do inferno que tu criou, mosca morta! Vai-te, com mil satanás!
PASTOR: Bem, pelo parecer de todos, é o que eu mereço. Pelo visto, a tantos que enganei em vida, não consigo mais enganar ninguém, nem a mim mesmo...
DIABA(à parte): Ainda aprendo um dia a fazer crochê e relaxar..... (ao pastor) Vamos logo, pastorzinho de uma figa, que eu já estou pensando em aumentar a sua pena! Quanto mais me encher o saco, maior será a sua sentença! Vamos! Se avie, homem!
PASTOR: Bem, já que é a única sentença proferida e que não poderei apelar a mais nada, o jeito é me resignar e ir-me antes que as coisas piorem de jeito por aqui.. Fui! (entra, finalmente)
BOBA: Achou um bom cantinho aí, ao lado desse bonequinho todo encarapitado, se achando o dono do inferno da pedra, não foi, seu pastor de meia-tigela? Canto melhor os está aguardando é no inferrnnno!!!! Huhuhu!!!
PASTOR (tira uma garrafa cheia e bebe um gole, fazendo uma careta horrenda depois): O que é isso?!?.... guaraná?!?...
DIABA: Isso é só por ter demorado a se decidir, me fazendo perder tempo, seu miserável, hahahah...